‘Depois roubar um banco’, debochou, em viagem a Noronha, noivo de blogueira carioca presa por estelionato

RIO – Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, os golpes aplicados pela quadrilha da qual fazia a parte a blogueira carioca Rayane da Silva Figliuzzi, de 24 anos, que cumpre prisão domiciliar pelo crime de estelionato, bancavam uma vida de luxos para os integrantes do grupo. Os indícios que corroboram a afirmação dos investigadores vinham até mesmo das redes sociais da modelo, onde ela acumula quase 88 mil seguidores. Foi anexado ao processo, por exemplo, um vídeo postado nos stories do Instagram da jovem. Na gravação, obtida pelo GLOBO, ela aparece com o noivo, Alexandre Navarro Júnior, o Juninho, de 28 anos, apontado como chefe do bando, em uma praia de Fernando de Noronha, destino paradisíaco no estado de Pernambuco.

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“Já tá marcando a próxima, acho que ele gostou de viajar, hein. Gostou de viajar, vida?”, pergunta Rayane no início do registro, enquanto Juninho aparece ao fundo, conversando com um homem e uma mulher — nenhum dos dois chegou a ser indiciado, por isso tiveram o rosto borrado pelo GLOBO. O companheiro da blogueira responde que sim. Em seguida, a jovem completa fazendo planos: “A próxima é França. E Maranhão”. Alexandre, então, diz: “E depois roubar um banco, porque acabou o dinheiro”.

A mulher que não se tornou alvo da investigação entra no assunto e concorda: “Depois de Noronha tem que roubar um banco primeiro”. Juninho retoma a palavra e, entre risadas dos amigos de viagem, arremata com uma “dica” para os seguidores da noiva: “Rapaziada que for vir pra Noronha, passa no caixa eletrônico, meio quilinho de dinamite, porque senão não vai não”.

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Rayane mantém, até hoje, 30 stories arquivados no Instagram sob o título “Noronha”, em que enfileiram-se vários momentos refinados vividos na ilha. O vídeo anexado ao processo, contudo, não está lá — embora em pelo menos um dos registros salvos ela vista o mesmo maiô que exibe na gravação obtida pelos investigadores. Juninho, que se encontra foragido, não é visto em nenhum momento da sequência de vídeos disponível no perfil da jovem, assim como os dois amigos.

Rayane tem mais de 87 mil seguidores nas redes sociais Foto: Reprodução
Rayane tem mais de 87 mil seguidores nas redes sociais Foto: Reprodução

Já o feed da moça, antes alimentado frequentemente com fotos, chegou a passar mais de sete meses sem atualizações. Ela voltou a postar em 24 de janeiro, cinco dias depois de obter na Justiça de Santa Catarina o direito à prisão domiciliar, usando como argumento o fiho recém-nascido que ela teve com Juninho. No registro, Rayane aparece de barriga de fora trajando um conjunto verde e branco, com a legenda “transforme suas frustrações em desafios”.

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No dia seguinte, ela voltou a interagir com os seguidores: “Bom dia, está tudo bem com vocês? Aos pouquinhos tô voltando”. A modelo também usou o perfil na rede social para postar fotos do filho pequeno, o resultado de um procedimento estético nos lábios e até uma nota com “esclarecimentos” sobre um episódio ocorrido no domingo passado. Na ocasião, ela foi detida por PMs em um restaurante de Areal, no interior do Rio, e levada para uma delegacia, onde constatou-se que ela estava em prisão domiciliar na cidade.

 

Rayane, Juninho e outros integrantes do bando tiveram a prisão preventiva decretada em novembro do ano passado. No dia 19 de janeiro, porém, outras quatro acusadas obtiveram o mesmo direito da modelo ao regime domiciliar, por motivos semelhantes — todas ou estavam grávidas ou têm filhos pequenos. São elas: Maiara Alves Teixeira, Isabela de Oliveira Dolores, Joyce Kelen Farias da Silva e Yasmin Navarro, irmã de Juninho e também blogueira. O Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC), entretanto, já pediu à Justiça que Joyce mude para o regime fechado, já que ela sofreu um aborto e perdeu o bebê que esperava, mas ainda não houve decisão a respeito.

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As investigações apontaram que, a partir de uma central de operações montada em um apartamento de alto padrão em Copacabana, na Zona Sul do Rio, falsas telefonistas entravam em contato com as vítimas em cidades catarinenses como Balneário Camboriú e Florianópolis. Elas simulavam ser funcionárias de instituições bancárias checando compras no crédito para convencer os alvos a entregar senha e cartão a comparsas que se dirigiam ao local e, em seguida, faziam várias transações em maquininhas pertencentes ao grupo, uma delas vinculada a um CNPJ no nome de Rayane, concluindo a farsa conhecida como “golpe do motoboy”.

Rayane tem cerca de 87 mil seguidores em um perfil das redes sociais Foto: Reprodução
Rayane tem cerca de 87 mil seguidores em um perfil das redes sociais Foto: Reprodução

Todos os 15 denunciados pela promotora Havah Emília Piccinini de Araújo Mainhardt se tornaram réus na Justiça catarinense. Mais da metade deles, oito mulheres, todas jovens, são apontadas como as telefonistas: as já citadas Maiara, Isabela e Joyce, além de Thais Canton Pires, Danyella Celeste Ribeiro Neto, Marina Gonçalves, Mariana Missias Fernandes Marques e Josiane Santos Oliveira. Havia ainda dois responsáveis por coletar os cartões das vítimas: Henrique de Lima Varrichio e Gabriel Paiva Silva Barros. Os investigadores citam, por fim, quatro proprietários das máquinas de cartão usadas nos golpes: Rayane, Yasmin, Brenda Miyuki Prieto Yazawa e Marcelo Varrichio Júnior, irmão de Henrique.

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Além das cinco mulheres em prisão domiciliar, o único réu já localizado pela foi polícia foi justamente Henrique, encontrado com cartões de vítimas e maquininhas em um imóvel na Avenida Trompowsky, uma das regiões mais nobres e valorizadas de Florianópolis. Foi a partir dele que a polícia conseguiu chegar aos outros acusados, que, assim como Juninho, o chefe da quadrilha, permanecem foragidos.

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— Esse grupo foi denunciado não só pelo crime de estelionato, mas também pelo de organização criminosa. Há provas robustas nos autos de que eles atuaram não só em Santa Catarina, mas também, pelo menos, no Rio de Janeiro — explica o delegado Attilio Guaspari Filho, responsável pelo inquérito: —  É muito importante para a polícia e para a sociedade que a população denuncie o paradeiro dessas pessoas, de modo que elas parem de aplicar golpes, caso ainda o estejam fazendo, até para manter o estilo de vida e pagar os honorários advocatícios.

O delegado Attilio Guaspari Filho, responsável pelo inquérito Foto: Reprodução
O delegado Attilio Guaspari Filho, responsável pelo inquérito Foto: Reprodução

Antes de frequentar o noticiário policial, Rayane da Silva Figliuzzi era habituada a aparecer nas páginas de fofoca. A jovem, que fez trabalhos como modelo, já foi apontada como affair do rapper norte-americano Tyga, durante uma visita do artista ao Rio, e também do cantor Saulo Pôncio. Nas redes sociais com dezenas de milhares de seguidores, ela anunciava diversos produtos de beleza e bem-estar.

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Já Yasmin Navarro, a irmã de Juninho, que também fazia sucesso na internet, é acusada de fazer parte de um outro bando que praticava o mesmo golpe no Rio de Janeiro. Em operação semelhante, também com foco em vítimas idosas, ela e outras comparsas, todas protagonistas de uma vida de ostentação nas redes sociais, usavam um apartamento no Recreio, na Zona Oeste da cidade, como central de operações.

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