Herson Capri volta aos palcos com texto sobre homofobia: “É preciso combater esses atrasos”

Herson Capri prepara a sua volta aos palcos com o desejo de levar uma reflexão para o público de temas que ainda são pertinentes na sociedade, como a intolerância, conservadorismo e homofobia. Em A Vela, que estreia no dia 4 de março no Teatro das Artes, no Rio de Janeiro, o ator interpreta Gracindo, um senhor que se vê sozinho com a morte da mulher, seu único elo afetivo após ter expulsado o filho (Leandro Luna) de casa por não concordar com sua orientação sexual e a sua maneira de se expressar como drag queen.

“Basta a gente ler e se interessar pelos movimentos culturais que nos cercam para entender a importância dessa peça. Está tudo à nossa volta, o racismo, a transfobia, a homofobia, a discriminação social… É preciso combater esses atrasos. O teatro existe para isso. Fiquei surpreso com a qualidade da dramaturgia e com a pertinência do conteúdo. É um libelo aprofundado contra os preconceitos dentro de uma história simples e muito bem narrada. É poético! Essa importância do conteúdo traz uma energia especial para o ator na hora de entrar em cena”, explica ele, sobre o espetáculo, escrito por Raphael Gama e dirigido por Elias Andreato.

Leandro Luna e Herson Capri  (Foto: Divulgação)
Leandro Luna e Herson Capri (Foto: Divulgação)

Ele explica que a mesmo tempo em que se preocupa com o caminho de uma parcela da população que insiste em disseminar o ódio, sente a paz de ter educado os cinco filhos sem preconceitos.

“Direta ou indiretamente sempre passei para os filhos a necessidade de não aceitarem preconceitos e discriminações consigo mesmo e com os outros. Isso sempre foi exposto nas conversas normais do dia a dia e principalmente no próprio comportamento, que é sempre o melhor referencial para os filhos. Meus filhos são esclarecidos e curiosos, querem saber mais sobre cada assunto. A minha preocupação é justamente com essa parcela da população que defende os preconceitos e age na vida disseminando ódio contra minorias. É uma atitude burra e arrogante”, avalia.

Herson Capri e família (Foto: Reprodução)

Herson Capri e com a ex-mulher Susana Garcia e os filhos (Foto: Reprodução)

A peça também aborda a solidão ao mostrar um senhor que decide por conta própria ir morar em um asilo. Aos 70 anos e solteiro, desde o fim de seu casamento de 26 anos com Susana Garcia, no final do ano passado, Capri conta que se acostumar a viver sozinho foi complicado no começo, mas que aprendeu a valorizar alguns pontos positivos da nova realidade.

“Vida de solteiro depois de tanto tempo de casamento é um choque no começo. Fica uma sensação de vazio. Todo aquele movimento da casa, o dia todo, não existe mais. Mas a solidão não me assusta. Tenho cinco filhos e todos são meus melhores amigos. É só pegar o celular e a solidão acaba. E a gente vai aprendendo a ter outras alegrias. Gosto de ficar sozinho, não o tempo todo, claro, mas gosto de ter tempo para pensar e ler. Agora estou tranquilo e gostando da nova situação, mas no início foi difícil.”

Desta experiência e do isolamento social, ele leva um ensinamento: o de que a vida é um eterno aprendizado e de que estamos em evolução constante. “Aprendi, nesse período, que sei pouco e que tenho muito que aprender sobre o mundo e sobre mim mesmo”, diz.

Leandro Luna e Herson Capri  (Foto: Divulgação)
Leandro Luna e Herson Capri (Foto: Divulgação)

Voltar para o teatro após esse tempo em que tivemos de tantas pausas e incertezas com a pandemia gera uma sensação diferente até em um ator com tantos anos de estrada como você?
Esse retorno ao palco traz uma satisfação enorme. Além do prazer que sempre senti fazendo teatro, é um retorno que representa também a volta da esperança de um mundo que acolhe as artes e a cultura. Tivemos uma grande lacuna nas nossas atividades nesse período. Tanto por causa da pandemia quanto pelo negacionismo político da cultura, de maneira geral. Só que o teatro passa por crises, mas não morre.

Como esse texto chegou em você?
Fui convidado pelo Leandro Luna, que é produtor do espetáculo e também ator da peça, e pelo diretor Elias Andreato. Por ser direção do Elias me interessei e li o texto. Fiquei surpreso com a qualidade da dramaturgia e com a pertinência do conteúdo.

Leandro Luna e Herson Capri (Foto: Divulgação)
Leandro Luna e Herson Capri (Foto: Divulgação)

O texto não fala só sobre homofobia, mas de como uma pessoa pode ou não evoluir com vivências e o tempo, mudando sua cabeça. De quando você começou a atuar para cá, muitas coisas mudaram. Muitas vezes vemos comportamentos de um mocinho de novelas da década de 90 que hoje seriam inaceitáveis e tachados de machistas, homofóbicos. Tem algum personagem que hoje você teria certeza que seria cancelado?
Acho difícil porque há uma ética necessária, tanto na dramaturgia quanto no entretenimento. O machismo já está sendo colocado como o vilão que ele realmente é faz tempo. A arte não comporta a defesa de raciocínios e comportamentos perniciosos. Ela os mostra, mas não os defende. E tem sido assim com os preconceitos. Eles são os vilões. A arte tem sido mais ética que a realidade.

O texto também fala sobre solidão. Você está sozinho novamente após o fim de seu casamento de mais de duas décadas. Sonha em viver um grande amor ainda?
Toda relação tem que ter amor. Senão a vida perde a graça. Se todos os seres humanos tivessem uma só alma, ela se chamaria amor.

Serviço:
Data: De 4/03 a 24/04
Horário: Em março, de Sextas e sábados, às 21h, e aos domingos às 20h. Em abril, de sextas e sábados às 19h e aos domingos às 18h.
Local: Teatro das Artes (Shopping da Gávea – Loja 264 – 2º Piso | Rua Marquês de São Vicente 52 – Gávea | Cep 22.451-901 – Rio de Janeiro – RJ)

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