Parentes na Rússia não acreditam que haja guerra, contam ucranianos sob ataque

Máquina de desinformação do Kremlin faz população que vive no país acreditar que Exército de Putin esteja salvando a Ucrânia

Refugiados ucranianos numa estação de trem em Przemysl, na Polônia: êxodo imposto pela guerra Foto: MACIEK NABRDALIK / NYT/05-03-2022

LVIV — Quatro dias depois que a Rússia começou a bombardear Kiev, o dono de restaurantes ucraniano Misha Katsiurin se perguntou por que seu pai, que mora na cidade russa de Nizhny Novgorod, ainda não havia ligado para saber como ele estava.

— Há uma guerra, sou filho dele, e ele simplesmente não liga — disse Katsiurin, de 33 anos

Katsiurin pegou então o telefone e contou ao pai que a Ucrânia estava sob ataque da Rússia.

— Estou tentando retirar meus filhos e minha esposa, tudo é extremamente assustador — disse Katsiurin.

Ele não obteve a resposta que esperava. Seu pai, Andrei, não acreditou no que ele dizia:

— “Não, não, não, pare” — respondeu seu pai, segundo Katsiurin, que converteu seus restaurantes em centros de voluntários e agora está no Oeste da Ucrânia. — Meu pai começou a me contar como vão as coisas no meu país, gritou comigo e disse “Olha, tudo está indo assim. Eles são nazistas”.

Em suas tentativas de justificar a invasão russa, o presidente Vladimir Putin se referiu ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, um falante nativo de russo com origem judaica, como um “nazista viciado em drogas”.

É assim que, enquanto os ucranianos lidam com a devastação em sua terra natal, muitos também estão enfrentando uma reação confusa e quase surreal de familiares na Rússia. Estes se recusam a acreditar que soldados russos possam bombardear pessoas inocentes ou mesmo que uma guerra esteja ocorrendo.

Esses parentes basicamente compraram a posição oficial do Kremlin: que o Exército de Putin está conduzindo uma “operação militar especial” limitada com a honrosa missão de “desnazificar” a Ucrânia.

Tais narrativas estão surgindo em meio a uma onda de desinformação que emana do Estado russo, à medida que o Kremlin se movimenta para reprimir reportagens independentes e molda as mensagens que a maioria dos russos está recebendo.

Estima-se que 11 milhões de pessoas na Rússia tenham parentes ucranianos. Muitos cidadãos ucranianos são russos étnicos, e aqueles que vivem nas partes Sul e Leste do país falam russo como sua língua nativa.

Os canais de televisão russos não mostram o bombardeio de Kiev e seus subúrbios, ou os ataques devastadores a Kharkiv, Mariupol, Chernihiv e outras cidades ucranianas. Eles também não mostram a resistência pacífica evidente em lugares como Kherson, uma grande cidade no Sul que as tropas russas capturaram há dias, e certamente não exibem os protestos contra a guerra que surgiram em toda a Rússia.

Em vez disso, eles se concentram nos sucessos dos militares russos, sem discutir as baixas entre os soldados russos. Muitos correspondentes da televisão estatal estão no Leste da Ucrânia e não nas cidades atingidas por mísseis e morteiros. Notícias recentes não fizeram menção ao comboio russo de 60 quilômetros de comprimento em uma estrada em direção a Kiev.

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