Assédio institucional: perseguição a servidores públicos é estratégia para enfraquecer órgãos como a Funai, avaliam especialistas

Muito antes de sofrer a emboscada na qual seria assassinado no Vale do Javari, o indigenista Bruno Pereira denunciava as ameaças que ele e colegas de serviço público sofriam da “máquina pesada” instaurada pelo atual governo, que descreveu como “autoritário” em sua última entrevista, à “Folha de S. Paulo”, detalhando de que maneiras o presidente da Funai o pressionava.

Não era um caso isolado. A pesquisadora Michelle Morais de Sá e Silva reuniu dezenas de relatos de funcionários públicos que, sob condição de anonimato, expuseram o clima de “medo coletivo” predominante nas mais diversas áreas da administração federal.

Para a professora da Universidade de Oklahoma, trata-se de um padrão que se repete em órgãos públicos sob a gestão Bolsonaro para enfraquecer instituições brasileiras.

“O servidor não precisa ter sido vítima, diretamente, de uma situação de assédio. Quando ele trabalha em um órgão que passa por um processo de ataque, ele também se sente individualmente atacado. Ele mesmo passa a viver essa situação de adoecimento”, explica Michelle em entrevista ao podcast O Assunto, fazendo referência ao assassinato de Bruno. “Eles se veem naquela condição e começam a questionar se teria sido com eles.

Participa também do episódio o sociólogo Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea e um dos organizadores do livro “Assédio Institucional no Brasil: Avanço do Autoritarismo e Desconstrução do Estado”. Ele explica que, de 2019 para cá, houve “mudança de método”: a atitude oficial agora, além de mais agressiva para com os indivíduos, visa também desqualificar os órgãos públicos. As pessoas “adoecem”, enquanto as instituições “perdem seu próprio sentido”.

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