Sabia não. Pai de Marinho descobre ida ao Flamengo em campo do Vasco e resume sonho no Ninho: “Iria de novo”

Na quinta-feira passada, quase toda a torcida do Flamengo sabia que Marinho vestiria vermelho e preto em 2022. Até mesmo os flamenguistas de Penedo-AL, terra natal do atacante. Mas e o pai dele? Sabia não.

O momento alto da apresentação do camisa 31 foi a emoção de José Carlos, pai do mais novo jogador do Flamengo e torcedor rubro-negro desde os 7 anos de idade. Mas sabe onde ele estava quando ouviu pela primeira vez que o filho defenderia o clube do coração? No campo do Vasco.

Não em São Januário, mas em Penedo, cidade alagoana onde o atleta nasceu e que fica a 1.988 quilômetros do Rio de Janeiro. No Vasco da Gama Esporte Clube, localizado Rua da Aliança Liberal, Zé Carlos, de 60 anos, até escutou o papo, mas não acreditou.

– Emoção porque é o seguinte. Nunca esperei que isso foi acontecer tão repentinamente. Eu disse para ele um dia: “Antes de terminar seu futebol, quero que você realize meu sonho. Quero ver você com a camisa do Flamengo“. Há um tempo, esteve projetado para ele para o Flamengo, e o Marinho foi para a China (em 2017). Eu não esperava ser pego de surpresa. Aí na semana passada, eu estava em um clube em Penedo chamado Vasco da Gama. Eu estava lá, e os meninos falaram: “Vocês viram que o Marinho vai para o Flamengo?”.

 

– Eu respondi: “É não, não acredito nisso não. Isso é conversa dos repórteres e dos youtubers”. À noite, falaram que ia ter um negócio do Marinho na internet, eu botei no Youtube e vi todos aqueles torcedores todos emocionados aguardando a chegada do Marinho. Aí vi que estava tudo certo – narrou em papo com o ge por telefone.

 

Marinho e Seu Zé Carlos com a camisa do Flamengo — Foto: Gilvan de Souza / CRF

Marinho e Seu Zé Carlos com a camisa do Flamengo — Foto: Gilvan de Souza / CRF

Pois é, não era mais sonho. Num intervalo de quatro dias, o pai do reforço rubro-negro trocava o campo do Vasco da Gama Esporte Clube, onde trabalhou como zelador anos atrás e Marinho deu seus primeiros passos, para pisar no Ninho do seu Flamengo. E tudo deu certo para Seu Zé Carlos na primeira vez que presenciou uma apresentação do filho. Conheceu o CT, tirou foto com jogadores e conversou com dirigentes. Dia inesquecível e que deixou no alagoano um gostinho de quero mais.

– Foi emoção demais, foi tão grande. Se eu pudesse passar mais dias aqui para visitar outras vezes, eu iria de novo. Vou voltar amanhã às 11h para a minha cidade, mas não faltará oportunidade. Maravilha de clube, pessoal muito educado, e fui bem recebido. Sei que serei bem recebido para sempre aqui. Está de parabéns o Flamengo, de parabéns – insistiu.

 

Marinho e o pai, José Carlos, ao lado de David Luiz dentro do Ninho do Urubu — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Marinho e o pai, José Carlos, ao lado de David Luiz dentro do Ninho do Urubu — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Marinho e o pai com Thiago Maia no CT — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Marinho e o pai com Thiago Maia no CT — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Vasco da Gama Esporte Clube: reduto flamenguista, segundo Zé Carlos

Apesar de a “notícia inesperada que mais esperava” ter sido dada em campo que leva o nome do rival, José Carlos garante: o Vasco penedense é o mais rubro-negro dos Vascos.

– Dentro do Vasco, o pessoal que faz parte do clube é todo flamenguista. Os diretores são todos flamenguistas. O Erivaldo Vasconcelos, que é o diretor, é flamenguista. Lá tem só um campo, uma quadra de areia. Lá tem uma sede com uma quadra de areia, onde o pessoal vai lá para tomar uma cervejinha, levar as crianças.

 

– Quando o Flamengo é campeão, meu irmão, lá em Penedo é uma festa. Tenho um menino que toma conta de uma adega, o Reno, que é flamenguista doente. Na decisão com o Palmeiras, ele comprou 10 caixas de cerveja porque ia ter uma carreata. Na nossa cidade, mais de 50% é flamenguista. Dos grandes aos pequenos. Se o Flamengo tivesse sido campeão, seria uma carreata e teria festa do Flamengo na sede do Vasco da Gama.

Ligação que não aconteceu por conta da empolgação

Marinho tentou avisar ao pai ainda na quinta-feira passada, dia do acerto, mas a empolgação de Seu Zé Carlos era tanta que ninguém o segurava dentro de casa. Só conseguiram se falar na sexta-feira, quando o atleta o convidou para marcar presença na apresentação, que aconteceu na segunda-feira.

– Quando acertou, Marinho ligou para minha esposa, e ela disse: “Painho não tá aqui”. Ou meu celular estava desligado ou eu estava na rua contando para os vizinhos. Quando de manhã veio a de certeza que ele iria para o Flamengo, na sexta o Marinho me ligou e falou: “Pai, preciso da identidade do senhor. O senhor vai vir para o Rio, eu quero que o senhor venha porque é o seu sonho. O senhor não queria que eu fosse para o Flamengo? Pois eu vou realizar o sonho do senhor”. Eu não sabia se pulava, se gritava ou chorava.

 

Marinho e o pai posam para foto em frente ao painel de festa da torcida — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Marinho e o pai posam para foto em frente ao painel de festa da torcida — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Se não sabia como reagir no dia do telefonema, no Ninho não deixou dúvidas. Chorou, abraçou e até deu entrevista. Simples, perguntou se foi bem com o microfone. Se depender da repercussão nas redes, Seu Zé logo voltará a dar entrevistas. E mais uma vez agradeceu a Marinho por tê-lo levado ao Rio.

– Vim ontem (domingo) para cá. Fiquei muito feliz, não esperava. O pessoal lá na coletiva incentivou, a repórter fez pergunta. Eu entrei naquela emoção, não sei se ficaram boas as palavras que falei. Ainda hoje isso pega meu coração, a ficha não caiu. Agradeço ao meu filho. Se ele fosse um filho ruim, não tinha pago passagem para eu vir para a apresentação dele. Sou flamenguista desde os 7 anos de idade. É uma grande satisfação.

Seu Zé Carlos chora ao ir ao encontro de Marinho no Flamengo — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Seu Zé Carlos chora ao ir ao encontro de Marinho no Flamengo — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Como descobriu o Flamengo

Nascido em 10 de setembro de 1961, José Carlos se encantou pela camisa do Flamengo e escolheu defender o clube em brincadeiras que vivia ao lado de um amigo no sítio onde morava Penedo. A paixão se reforçou de 1976 a 1982, quando morou no Rio de Janeiro e pôde acompanhar a geração de Zico e companhia.

– Quando vi a camisa do Flamengo, nos meus 7 anos, achei muito linda. Quando era pequeno, eu morava num sítio e brincava com um garoto que mora no Rio hoje. A gente brincava com duas traves, e ele dizia: “Eu sou Vasco, e eu dizia sou Flamengo“. Aí, em 1976 fui para o Rio e depois apareceu aquele time com Zico, Adílio, Cláudio Adão. Fiquei seis anos no Rio, onde trabalhava com um sobrinho em oficina. Aí meu gosto pelo Flamengo foi ainda maior. Trabalhei também tomando conta de quatro ônibus de linha e depois voltei para a minha cidade.

00:00/07:55

Após Marinho, Flamengo vira suas atenções para a Europa

Como falou de trabalho, é impossível não citar que ele continua na batalha. Embora Marinho já tenha pedido para o pai pendurar as chuteiras. Ou melhor, para aposentar-se, Seu Zé Carlos continua as atividades por Penedo. Lá, espera no futuro tocar um projeto social para acolher crianças que gostem de futebol. Mas só pretende administrá-lo, já que disse saber só “fazer raiva” com a bola no pé.

– Continuo trabalhando como administrador do campo da Sesi, da prefeitura da minha cidade. Meu filho não quer que eu trabalhe mais de jeito nenhum. O povo mete o pau em mim achando que meu filho não me ajuda, mas ele me ajuda sim. Ele diz: “Pai, o senhor não pode mais trabalhar por causa da sua idade”. Mas a partir do momento que você gosta de fazer um trabalho, você trabalha.

– Deus vai me ajudar, e o Marinho vai realizar o meu sonho de construir um campinho para eu fazer um trabalho social. É pegar aqueles garotos que estudam de manhã e não tem o que fazer à tarde para estarem numa escolinha.

Em papo que durou 30 minutos, Seu Zé narrou todas as dificuldades que o filho viveu até chegar ao Flamengo. Lembrou da época que não tinham dinheiro para colocá-lo numa escolinha de futebol de Penedo. Do passarinho capuchinho papa-capim que Marinho teve de vender por R$ 50 para comprar chuteira quando ainda era criança e outras coisas mais.

– E tem a história do passarinho que eu tinha. Minha mãe me colocou um mês na escolinha falando que era para brincar e depois não teria condição. E eu não tinha chuteira. Acabei vendendo um passarinho por R$ 50, entrei no clube, passei um mês e o professor Juquinha disse que a partir do mês seguinte não precisava mais pagar, que eu receberia uma bolsa. Foi muito bacana. Só agradecer ao meu pai e minha mãe por todo esforço que fizeram por mim – contou Marinho durante a apresentação.

O reforço rubro-negro passou por muitas dificuldades financeiras, mas sempre lutou pelo sonho de jogar futebol. Às vezes, os garotos maiores queriam tirá-lo da pelada, mas Marinho batia o pé e prometia “esculhambar” o jogo caso não tivesse uma vaguinha. Jogava pedra, fazia pirraça, mas entrava e se destacava.

Voltava para casa e apanhava da irmã, Cristiane, porque estava sempre sujo de lama. Mas teimava. De tanto teimar, conseguiu passar por um punhado de equipes, incluindo o projeto social “Ocupar para não Entregar”, organizado pela Polícia Militar alagoana. Jogou muito bola, mas deu bastante trabalho, o que rendeu algumas dispensas. Insistiu até que tentou a sorte no Santos e acabou conseguindo espaço na base do Fluminense. Daí em diante, começou a história no futebol profissional que todo mundo conhece.

Marinho beija Seu Zé Carlos em apresentação no Flamengo — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Marinho beija Seu Zé Carlos em apresentação no Flamengo — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Sangue rubro-negro passado à família após contratação

E, em 31 de janeiro de 2022, Marinho realizou o sonho do pai a poucos metros do mesmo. Emocionou-se, abraçou e beijou o homem que, ao lado de Dona Eliene, nunca o deixou desistir da bola.

Com o desejo realizado, Seu Zé agora parte para a etapa de proliferar a paixão rubro-negra dentro de casa. Já vestiu uma das netas e agora faz a cabeça da esposa Eliene, que nunca teve time de coração e que lhe deu uma bronca quando o viu comemorar a vitória do Flamengo por 4 a 0 sobre o Santos no ano passado.

– Marinho sempre dizia que do Santos estava com vontade de ir pro exterior, mas Deus tocou no coração dele e ele realizou o meu desejo. Minha esposa era torcedora do filho, agora virou torcedora do Flamengo. Até uma bebê de 4 meses, minha neta que é filha da Cristiane (irmã de Marinho), já botou a camisa do Flamengo. E olha que a minha esposa ficou p… ao me ver vibrando com os gols do Flamengo. Ela disse: “Vou falar isso ao seu filho”. Eu respondi: “Marinho sabe que eu sou Flamengo“.

Agora “jogando no mesmo time”, Seu Zé vê o filho muito empolgado com o novo desafio em vermelho e preto. Aposta que a facilidade do filho em fazer amigos

– Ele está muito feliz, acho que ele tá mais feliz do que eu. Está muito ansioso pra jogar, já tem muita amizade com os jogadores. Tem muitos que são como irmãos dele. É muito brincalhão, já estava brincando com os meninos. Onde ele vai faz amizade. Marinho, eu quero que seja o melhor ano para você. Com gols. Principalmente tanto com a equipe do Flamengo e todos os jogadores. Primeiramente ele, claro, e sei que o primeiro gol vai ser dedicado a mim. A vida de futebol é curta. Vou pedir muito a Deus que seja um ano de glórias.

Do rolé aleatório que o fez saber do filho no Flamengo dentro de um Vasco menos famoso, seu Zé Carlos foi ao Ninho viver um dia pra lá de inesquecível e grandioso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.