‘Vem de todos os lugares’, diz Mari Goldfarb sobre cobrança com maternidade

“Não queria acreditar que estava aqui apenas para servir de cabide para marcas”, comenta Mariana Goldfarb, modelo, estudante de Nutrição e influenciadora, ao falar sobre o seu propósito no mundo. Aos 30 anos, ela se tornou referência e passou a ajudar outras pessoas que estão enfrentando o mesmo problema que ela já lutou contra: transtornos alimentares.

Desde o início de sua carreira, Mariana se deparou com a anorexia e compulsão, frutos de pressão profissional e social. “Eu passei tanta coisa em relação a corpo e beleza, fico muito feliz que hoje estou saudável, que não uso chip da beleza, não tomo remédio para emagrecer, nem diuréticos. Eu estou em contato com a minha essência mesmo. Eu malho, me cuido e hoje estou em um lugar que me sinto feliz em estar, mas foi uma luta. A faculdade de Nutrição me ajudou muito, estudar, ouvir os depoimentos de outras mulheres, sair do lugar de perfeição”, desabafa em entrevista à Marie Claire.

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Atualmente, através das redes, ela vem falando sobre vida saudável, a sua conexão com a natureza, a faculdade de Nutrição e temas ligados ao feminismo, alguns até mesmo ainda considerados tabu, como a menstruação.

“Ninguém vai ter a mesma opinião em tudo e tudo certo, é para ser assim, mas é necessário gerar um lugar de conversa e de discussão, que é benéfico para todos. É assim que eu aprendo e vejo quando estou errada. Nós, mulheres, fomos doutrinadas a pensar de certas maneiras desde antes do nascimento e eu venho me questionando muito sobre o que que de fato é meu e o que que foi enfiado na minha cabeça”, diz.

“O meu externo se tornou só um canal para eu poder passar esses aprendizados. Hoje eu sei que a minha lição de vida está ligada ao outro, e assim eu consigo me curar de mim.”

Mariana Goldfarb

Em uma sociedade ainda machista, Mariana também falou sobre a cobrança da maternidade. Casada com o ator Cauã Reymond, que já é pai de Sofia, de seu relacionamento com Grazi Massafera, ela revelou que a pressão para ser mãe é uma realidade que lida com frequência.

“Vem de todos os lugares. A sociedade cria uma expectativa da idade que a gente tem que casar, depois a idade que temos que ter filho, e depois o segundo filho, e o terceiro. A gente sempre tem que prover tudo para o marido e ser alicerce, mas às vezes não queremos ser alicerce coisa nenhuma”

Marie Claire: 2022 está apenas começando. Como foram as primeiras semanas do ano?

Mariana Goldfarb: Olha, eu já voltei ao trabalho. Na verdade, eu nem sei se posso falar assim porque, nessas férias, não parei de estudar e trabalhar em nenhum momento. Como eu estudo e trabalho com aquilo que gosto, acho fazer isso me transmite paz.

Eu não enxergo férias sem estudo, por exemplo. Pode ser estranho ouvir isso, mas parece que eu caminhei tanto para chegar aqui, nesse determinado lugar, que faz parte da minha gratidão ser assim. Eu estava nas Maldivas e trabalhei, ao mesmo tempo. Para mim, não é um problema, me dá alegria.

MC: Você é uma mulher muito ligada à natureza e deixa isso bem claro nas suas redes. Sempre foi assim? Quais benefícios o contato com a natureza te traz?

MG: Sempre foi assim, desde que sou pequena. Eu sou muito solta e não sei se foi o contato com a natureza que fez isso ou se foi eu que procurei o contato com a natureza justamente por me sentir livre nesses lugares, e não me sentir julgada. É algo mútuo. Eu sou alimentada pela natureza, da mesma forma que sinto que também alimento e devolvo esse amor. Não existe Mariana sem esse contato, nunca existiu.

 

MC: Nas redes, você também fala muito sobre alimentação. Como é a sua relação com a comida e com o seu corpo hoje?

MG: Eu passei tanta coisa em relação a corpo e beleza, fico muito feliz que hoje estou saudável, que não uso chip da beleza, não tomo remédio para emagrecer, nem diuréticos. Eu estou em contato com a minha essência mesmo. Eu malho, me cuido e hoje estou em um lugar que me sinto feliz em estar, mas foi uma luta.

A faculdade de Nutrição me ajudou muito, estudar, ouvir os depoimentos de outras mulheres, sair do lugar de perfeição. Foi assim que comecei a enxergar que a minha aceitação para comigo não era benéfica apenas para mim, e isso trazia todo um movimento, ia de acordo com tudo que eu que eu procuro disseminar.

Não vou ser hipócrita e dizer para você que eu não me boicoto e nem me saboto nunca. Tem momentos em que a minha autoestima está baixa e eu penso em mexer em alguma foto, mas aí eu lembro do propósito. É pior ainda porque, quando temos que trabalhar com a imagem e somos referência em determinado assunto, essa flexibilidade não existe muito.

Ao mesmo tempo em que eu sou voz, também sei que sou vítima dessa engrenagem e que faço ela girar. É claro que eu falo de um lugar privilegiado, o meu intuito é, com o alcance que tenho nas redes, atingir o maior número de pessoas possível.

“Acho que todas nós, mulheres, sofremos com variantes de autoestima, não é um fenômeno de uma pessoa só. Mesmo quando você já está no padrão, vem alguém e diz que você precisa ser ainda mais padrão.”

Mariana Goldfarb

Mari Goldfarb fala sobre conexão com a natureza em entrevista à Marie Claire (Foto: Reprodução / Instagram)
Mari Goldfarb fala sobre conexão com a natureza em entrevista à Marie Claire (Foto: Reprodução / Instagram)

MC: E como é ser referência dentro do assunto?

MG: Esse é o propósito da minha vida. Há alguns anos, eu não sabia o que estava fazendo aqui. Eu fiz direito, e não me formei, fiz comunicação, e não terminei. Parece que ficava um buraco de: “Qual é o sentido?”. Eu não queria acreditar que estava aqui apenas para servir de cabide para marcas e vestir roupas, e é isso.

Eu nunca me contentei em ser só o meu externo. E acho que agora eu encontrei um equilíbrio muito interessante entre o externo e o interno, e eu estou fazendo uso do que Deus me deu e trabalhando o meu conhecimento, habilidades, talentos e solidariedade perante o mundo.

O meu externo se tornou só um canal para eu poder passar esses aprendizados. Hoje eu sei que a minha lição de vida está ligada ao outro, e assim eu consigo me curar de mim.

MC: Como estudante de Nutrição, quais estão sendo os maiores desafios e surpresas dentro dessa fase acadêmica?

MG: O maior desafio foi começar porque eu tinha um medo tão grande de falhar, de não ser capaz e de abandonar tudo que nem eu já tinha feito com direito e comunicação. Eu tinha medo de errar, fracassar. Então acho que dar o primeiro passo foi o mais difícil.

Também foi complicado conciliar a minha agenda, mas as aulas online me ajudaram bastante. Estou me formando agora, mas já terminei as minhas aulas e fiz meu TCC. A minha maior surpresa foi o estágio. Eu entrei com muito medo, mas foi uma surpresa muito positiva. No fim, eu fui muito bem recebida e tirei boas notas.

MC: Quais são os seus planos de futuro dentro da carreira?

MG: Ao mesmo tempo em que estou me formando em Nutrição, também estou me formando como terapeuta Ayurveda, que vai servir como pós. A ideia é seguir estudando até eu sentir que é a hora de atender, mas não estou com pressa.

Eu quero me sentir pronta, no sentido de adquirir conhecimento suficiente para poder me sentir um pouco mais segura ao ajudar alguém de uma maneira tão particular e individual.

MC: E como surgiu o interesse e a ligação com a Ayurveda?

MG: Eu acho que a Ayurveda é o futuro, sabe? Acredito em todo um estilo de vida feito através de hábitos construídos com o tempo e que vão levar a gente à saúde e longevidade de maneira equilibrada. E é necessário desconstruir que é algo difícil, porque eu estou falando de hábitos simples: dormir mais cedo, acordar mais cedo, raspar a língua, o que pode ser feito até mesmo com uma colher, tomar um copo de água toda manhã, dez minutos de respiração.

Então eu não estou aqui falando que é para você comprar a Goji Berry que vem lá do Polo Norte, estou falando de atitudes que estão dentro da nossa capacidade. Com certeza eu vou para o caminho da ayurveda, isso me ajudou muito a entender o meu corpo.

MC: Falando em corpo, o processo para se curar de um distúrbio alimentar é longo, certo? Você sente que a faculdade de Nutrição também te deu apoio nesse caminho?

MG: Me ajuda, sim. Eu lembro que o que colaborou para a anorexia na época, além da pressão estética, foi um livro que eu li e que falava sobre como os carboidratos eram os grandes vilões. O livro em si não era nada demais, mas para mim, que já não estava tão bem, mudou tudo.

Eu peguei esse livro no momento errado, porque eu já estava há anos sendo modelo, achando que era imperfeita, que não era suficiente. Hoje em dia eu presto muito atenção naquilo que eu consumo, seja livro, programas de TV, nas redes.

“é claro que a faculdade me ajudou bastante, mas o essencial e o que me salvou foi a terapia. É necessário ter alguém que te ajude a entender de onde isso nasceu.”

Mariana Goldfarb
Nas redes, Mari Goldfarb, estudante de nutrição, comenta sobre alimentação (Foto: Reprodução / Instagram)
Nas redes, Mari Goldfarb, estudante de Nutrição, comenta sobre alimentação (Foto: Reprodução / Instagram)

MC: Na internet, você fala sobre vários assuntos que ainda são, infelizmente, considerados tabu, um deles é a menstruação. Já sentiu receio de comentar sobre alguma coisa no Instagram, por exemplo? Como lida com isso?

MG: Eu lido falando ainda mais sobre isso. Não tenho medo de errar e, se errar, eu aprendo e peço desculpa. Eu me abro para o erro e acho que os assuntos onde a gente recebe a maior resistência são os assuntos que a gente tem que conversar mesmo.

Ninguém vai ter a mesma opinião em tudo e tudo certo, é para ser assim, mas é necessário gerar um lugar de conversa e de discussão, que é benéfico para todos. É assim que eu aprendo e vejo quando estou errada.

O que eu mais sinto dificuldade de falar na internet é sobre política, mas eu não deixo de me posicionar e nem nunca vou deixar. Já sobre feminismo e assuntos gerais ligados à mulher, eu estou cada vez mais engajada. Faço aula sobre isso, então é algo que estou aprendendo bastante.

“Nós, mulheres, fomos doutrinadas a pensar de certas maneiras desde antes do nascimento e eu venho me questionando muito sobre o que que de fato é meu e o que que foi enfiado na minha cabeça.”

Mariana Goldfarb

MC: Quando e como foi que o feminismo entrou na sua vida?

MG: Acho que foi através dos meus relacionamentos. Na verdade, eu sempre fui uma garota teimosa, no sentido de ser uma pessoa questionadora. Por que que eu não podia me sentar do jeito que eu queria sentar? Ou por que que eu não podia vestir outra roupa que não fosse vestido? Por que eu não podia falar mais alto? Eu sempre tentei entender isso, e não conseguia.

Então sinto que eu já era um pouco feminista, só não sabia que isso, naquela época, tinha esse nome. Mas eu acho que isso foi cair a ficha mais tarde com um relacionamento que tive. A mulher tem sempre que que ser a boazinha, né?

“Eu não nasci para ser bela, recatada e do lar.”

Mariana Goldfarb
Então, aos poucos, fui entendendo isso, às vezes de um jeito doloroso, porque temos que lutar diariamente pelo nosso espaço. Não é fácil, mas eu não me arrependo de ter ido atrás desse conhecimento. A essência da mulher é verdadeiramente selvagem.

MC: A sociedade realmente ainda dita muito o comportamento da mulher, até mesmo quando o assunto é maternidade. Existe sempre uma pressão para que a mulher, depois de se casar, tenha filhos logo. Essa cobrança às vezes vem de amigos, da família, e também da mídia…

MG: Vem de todos os lugares. A sociedade cria uma expectativa da idade que a gente tem que casar, depois a idade que temos que ter filho, e depois o segundo filho, e o terceiro. A gente sempre tem que prover tudo para o marido e ser alicerce, mas às vezes não queremos ser alicerce coisa nenhuma.

Tem momentos que não conseguimos administrar uma casa e ainda ser cobrada porque precisamos estar com a unha bonita e cabelo hidratado. Não só eu, mas todas as mulheres sofrem com esse tipo de situação. Alguns dias, até eu me cobro, sem querer. Fico pensando que já tenho trinta anos e não tenho filho, sendo que não existe isso, cada um tem seu tempo.

Sem contar que, eu tenho medo do momento que estamos vivendo, parece que as coisas estão acabando. Hoje eu sinto que a infância foi roubada das crianças por esse mundo virtual, celular, e isso é uma coisa que me preocupa sim. Eu realmente paro para pensar: Será que eu vou saber ter um filho nesse mundo de hoje?

Eu tenho certeza de que eu nasci para ser mãe, mas é uma responsabilidade colocar alguém no mundo. Será que vou conseguir passar para os meus filhos os valores e as crenças, ao mesmo tempo em que vou respeitar a individualidade deles e não impor o que eu penso.

Mariana Goldfarb, Cauã Reymond e a filha, Sofia (Foto: Reprodução / Instagram)
Mariana Goldfarb, Cauã Reymond e a filha, Sofia (Foto: Reprodução / Instagram)

MC: Quais são os seus planos para 2022?

MG: A gente sempre faz mil projetos né. Eu aprendi que é importante escrever as metas, mas se algo não sai do jeito que esperamos, tudo bem. Tenho alguns projetos, mas nada muito grande não. Por exemplo, eu tenho o projeto de continuar fazendo yoga, de acordar cada vez um pouquinho mais cedo, de comer melhor, de ser mais solidária.

Também tenho o projeto de um programa meu, que finalmente vai sair. O roteiro foi entregue essa semana e é algo que tenho realmente vontade. E eu também quero me conhecer cada vez mais. O meu projeto esse ano sou eu mesma.

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