Aposentado após oito AVCs, irmão de Carlos Alberto ganha direito a pensão vitalícia do Volta Redonda

Fernando Gomes de Jesus parou cedo de jogar futebol. Irmão mais novo de Carlos Alberto, hoje também aposentado, ele foi revelado pelo Fluminense tal qual o irmão. O ex-meia, com passagem pelo Flamengo, se aposentou aos 29 depois de sofrer acidentes vasculares cerebrais em série.

O caso é mais delicado do que parece. No processo que corre na 1ª Vara do Trabalho de Volta Redonda desde 2017, o jogador ganhou o direito de receber uma pensão vitalícia do Volta Redonda, o último clube que defendeu na carreira. Além disso, no fim do ano passado foi publicado acórdão com indenizações de danos morais e materiais que beiram os R$ 300 mil.

Fernando, irmão de Carlos Alberto, tentou recomeçar no futebol como auxiliar técnico no Bonsucesso em 2017 — Foto: Reprodução/SporTV

Fernando, irmão de Carlos Alberto, tentou recomeçar no futebol como auxiliar técnico no Bonsucesso em 2017 — Foto: Reprodução/SporTV

O Volta Redonda, que chegou a propor acordo bem abaixo das pedidas do ex-jogador na Justiça (o ge apurou que os valores da proposta do clube giravam em torno de R$ 20 mil), incluiu os valores da sentença – bem alta para os padrões de clube de menor investimento – no Plano de Credores, após conseguir autorização para Centralização das Execuções. O clube também informou que cumpre o pagamento R$ 1.200 como forma de pensão vitalícia, o que representa 30% do último salário que Fernando recebia como profissional de futebol (R$ 4.000).

Em contato com a reportagem do ge, o Volta Redonda informa que “apesar do termo ‘vitalício’, existe uma discussão se a mesma (pensão) deve ser paga até uma determinada idade, considerada a média da idade do encerramento da carreira de um atleta de futebol, e o clube está buscando esse esclarecimento para integral cumprimento.”

Fernando, que já havia defendido o Volta Redonda em 2013 e 2015, não chegou a sequer a ir a campo na terceira passagem. Ele foi contratado no segundo semestre de 2016 para disputar a Série D do Brasileirão ficou no banco em uma partida da competição, contra a URT, e se aposentou graças a um acidente sofrido no treino. O Voltaço terminou como campeão da Série D.

Em nota, o Volta Redonda também informou que “já quitou 82 processos trabalhistas nos últimos anos, que representam mais de R$ 5 milhões, restando apenas 19 Execuções, com previsão de quitação integral em, no máximo, três anos.”

 

“Efeito chicote”

 

Recentemente, o ge contou a história de Eduardo Felipe, que morreu em 2015 depois de suspeita de dengue e foi vítima de infecção generalizada, decorrente de uma broncopneumonia bilateral. A família do jogador de 19 anos tenta provar na Justiça que houve negligência médica por parte Volta Redonda. O processo está parado há quase três anos à espera de perícia.

No caso de Fernando, a perícia foi fundamental para a decisão favorável ao jogador na 1ª Vara do Trabalho de Volta Redonda, no acórdão assinado pela desembargadora relatora Carina Rodrigues Bicalho. O laudo médico da perita Flávia Peixoto Bittencourt concluiu que Fernando apresentava “incapacidade total indefinida uniprofissional”.

Isso significa que Fernando está liberado para desempenhar outras funções, mas que “não há como determinar que o reclamante (Fernando) apresente o mesmo desempenho de um jogador de futebol em condições normais (sem história pregressa de dissecção de artéria e ou acidente vascular encefálico) bem documentado em relatórios médicos anexados aos autos”, como relatou a desembargadora no acórdão.

Em outras palavras, seguir a carreira de jogador de futebol colocaria sua vida em risco.

Fernando, irmão de Carlos Alberto, defendeu o Flamengo em 2010 — Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images

Fernando, irmão de Carlos Alberto, defendeu o Flamengo em 2010 — Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images

No dia 10 de junho de 2016, Fernando se chocou de cabeça com o zagueiro Luan em um treino do Volta Redonda. Depois disso, passou a sentir tonturas, enjoos e confusão mental. No mesmo dia do choque, o volante deixou o clube e desmaiou próximo a um supermercado, a cerca de 50 metros da sede da equipe. Ele sofreu ao menos oito AVCs após o episódio.

Ficou constatado no laudo médico que houve um “efeito chicote” no pescoço de Fernando, o que, por sua vez, causou outra série de lesões, como dissecção da artéria cerebelar, isquemia cerebelar e paresia transitória. O ex-jogador conta nos autos que relatou isso ao doutor Cláudio Bittencourt, do Volta Redonda, o mesmo médico acusado de negligência pela família de Eduardo Felipe. Mas que não houve o acréscimo de exames ou aprofundamento no seu diagnóstico. Ele, inclusive, foi relacionado para a partida contra o URT no dia 20 de junho, embora não tenha saído do banco.

No comunicado enviado pelo Volta Redonda, o clube “reitera que, na época, enquanto o atleta esteve na cidade, recebeu todo o auxílio do Departamento Médico do clube e do Dr. Claudio Bittencourt, que prestou todo o atendimento que o mesmo precisava. Porém, com o fim do contrato e das competições na época, o próprio jogador tinha solicitado ir para o Rio de Janeiro, onde residia, e não fez mais nenhum contato posterior com o clube, não apresentando nenhuma reclamação.”

No laudo, a reclamada (Volta Redonda) fez algumas questões à perita. Destacamos:

  • (Para a perícia) Apontar as lesões/doenças que acometem o reclamante.
  • Resposta: No exame pericial não foram constatadas lesões e ou doenças.
  • Se referidas doenças/lesões podem ser consideradas como doenças profissionais ligadas ao trabalho ou decorrentes de acidente do trabalho?
  • Resposta: Sim, pode ser ocasionada por grandes traumas como acidentes automobilísticos ou pequenos traumas diretos no pescoço ocorridos durante atividade física, neste caso no treino de futebol.
  • Se referidas doenças/lesões são oriundas de suposto choque?
  • Resposta: Sim, como respondido na questão anterior, um trauma direto no pescoço pode levar a dissecção da artéria cerebelar póstero inferior.
  • Se é possível confirmar que a doença tem origem no efeito chicote?
  • Resposta: Neste caso não podemos descartar a possibilidade de que a dissecção da artéria cerebelar póstero inferior tenha acontecido em choque durante o treino de futebol.

 

Trecho da representação de Fernando destaca as consequências para a saúde do atleta de acidente de trabalho no Volta Redonda — Foto: Reprodução

Trecho da representação de Fernando destaca as consequências para a saúde do atleta de acidente de trabalho no Volta Redonda — Foto: Reprodução

Um companheiro de time de Fernando contou nos autos do processo que “ele teve uma colisão num lance de treinamento com o jogador Luan; que o acidente aconteceu num treinamento de bola aérea, quando o reclamante bateu a cabeça na cabeça do jogar Luan; que ambos caíram no campo, sendo atendidos pelo massagista, não se recordando se havia médico presente; que Luan continuou no treino, mas o reclamante saiu reclamando de dor na nuca;… que cerca de uma semana a 10 dias depois da colisão o reclamante pediu para ir ao médico no Rio de Janeiro para fazer um exame; que o reclamante voltou ao clube contando para o depoente que teve um AVC e teve problema na artéria”.

Fernando assinou contrato em 28 de maio de 2016, com salário de R$ 4 mil e vínculo até outubro do mesmo ano. Ele recebeu apenas R$ 2.920,00 pelo salário de junho. A decisão da Justiça reconheceu o valor do salário do ex-atleta, ao qual o clube contestava, e deu ganho de causa para Fernando receber FGTS, férias e 13º proporcionais, além de indenização pela não contratação de seguro

Veja um trecho da decisão a favor de Fernando:

“Pelo exposto, decide esta 7ª Turma do TRT da 1ª Região, por unanimidade, conhecer do recurso interposto pelo autor e, no mérito, dar-lhe parcial provimento para: a) reconhecer os benefícios da gratuidade de justiça; b) reconhecer a remuneração mensal no valor de R$ 4.000,00; c) deferir diferenças de FGTS, férias proporcionais e 13º proporcional; d) deferir indenização decorrente da não contratação do seguro obrigatório do atleta profissional, fixada em R$48.000,00; e) deferir indenização por danos materiais, fixada em R$36.350,00; f) deferir indenização por danos morais, arbitrada em R$50.000,00; g) deferir pensão mensal vitalícia no importe de 30% do valor da última remuneração recebida (item b); h) deferir as multas dos artigos 467 e 477 da CLT.”

Em depoimento ao jornal “O Globo” em 2017, Fernando lembrou o drama particular que viveu:

— Após a trombada com um zagueiro, eu caí sentindo dores e com a visão turva. Mesmo assim, continuei a treinar. Com o passar dos dias, sentia tremores, perdia campo visual. Ia comer e não conseguia conversar e ver o prato ao mesmo tempo. Cheguei a desmaiar na rua e a pedir ajuda, mas ninguém deu, por medo de eu ser algum bêbado ou drogado. Ninguém sobrevive sem qualquer sequela a sete AVCs — contou Fernando, que tentou ser auxiliar técnico no Bonsucesso.

Ao SporTV, há seis anos, a namorada Joana Gomes de Araújo contou dos cuidados de Fernando com os AVCs. O ex-jogador ainda tomava anticoagulante sem previsão de suspensão. Depois do choque no treino em 2016, Fernando fez inúmeros exames por conta própria e passou por procedimentos médicos para investigar a origem do mal-estar e dos AVCs que sofreu.

Por defender acidente de trabalho, os representantes do jogador lembraram que os custos seriam do empregador por todas despesas médicas até o pagamento da indenização pela seguradora. Mas nunca houve seguro. E, na Justiça, Fernando ainda ganhou direito a reaver R$36.350,00 dos gastos totais em médicos, remédios e exames – ao todo, ele anexou 35 notas fiscais e laudos pelos quais passou.

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